Bastidores

Como a gente decide o que entra e o que sai de uma página

Toda página começa querendo dizer tudo. A regra que a gente usa para cortar tem uma pergunta só, e ela resolve quase todas as discussões de aprovação.

admin 5 min de leitura

Todo projeto de site começa do mesmo jeito: uma lista do que precisa entrar. E a lista é sempre grande demais.

Quem manda fazer quer contar a história da empresa, os valores, a missão, o diferencial, a equipe, o processo, os certificados, os parceiros, o portfólio, o blog, a newsletter e a área do cliente. Cada item entrou na lista por um motivo legítimo — alguém, em algum momento, sentiu falta daquilo.

O problema é que uma página que diz tudo não diz nada. A atenção de quem visita é finita e curta, e cada elemento a mais divide o que sobrou.

A pergunta que decide

A gente usa uma regra só, e ela é bruta de propósito:

Cada elemento da página precisa fazer uma destas três coisas: responder uma objeção, provar alguma coisa, ou pedir uma ação. O que não faz nenhuma das três, sai.

Parece simplista. É justamente por isso que funciona: ela transforma uma discussão de gosto numa pergunta que tem resposta.

Quando alguém defende manter uma seção, a pergunta não é “você gosta disso?”. É “qual das três?“. Se a resposta demora a vir, já está respondida.

Como isso derruba as seções mais comuns

“Nossa história”, com a linha do tempo desde 1998. Qual das três? Pode ser prova — tempo de mercado é prova. Mas ela quase nunca está no lugar certo. Uma linha do tempo na primeira dobra responde uma pergunta que ninguém fez ainda; a pessoa acabou de chegar, ela quer saber o que você faz. “Há 27 anos no mercado” como uma linha, junto de outras provas, faz o mesmo trabalho em um centésimo do espaço.

“Missão, visão e valores.” Qual das três? Nenhuma. Ninguém nunca contratou ninguém por causa de um quadro de valores, e todo mundo escreve os mesmos. É a seção que mais consome espaço nobre e menos produz. Se os valores importam de verdade, eles aparecem no jeito como o resto da página está escrita — não numa lista.

O carrossel de banners na primeira tela. Qual das três? Ele tenta fazer as três, e é por isso que falha. Um carrossel é uma seção que não conseguiu decidir. Na prática, quase todo mundo vê só o primeiro slide, e os outros existem para acalmar a discussão interna sobre qual mensagem vem primeiro. Escolha uma.

O vídeo institucional de dois minutos. Qual das três? Prova, em tese. Mas exige do visitante dois minutos de atenção antes de ele saber se você resolve o problema dele. É pedir crédito antes de dar motivo. Vídeo funciona bem — depois, quando a pessoa já se interessou.

Logotipos de clientes sem nome, sem link, sem contexto. Qual das três? Prova fraca. Prova que existiu uma relação comercial, não que deu certo. Três casos com nome, link e resultado valem mais que trinta logotipos.

O que quase nunca sai

Do outro lado, existem elementos que passam na regra com folga e que costumam estar mal colocados ou ausentes:

A frase que diz o que você faz e para quem. Responde a objeção mais básica de todas. Deveria ser a primeira coisa legível, e em metade dos sites ela não existe em lugar nenhum — está subentendida.

O telefone visível. Pede uma ação. No celular, deveria estar a um toque de qualquer ponto.

A faixa de preço. Responde a objeção mais forte. Quase sempre ausente.

Um caso com link. Prova, de verdade.

A resposta às dúvidas chatas. Prazo, forma de pagamento, o que acontece se der errado, quem faz o trabalho. Toda empresa tem uma lista dessas — são as perguntas que se repetem em toda conversa de WhatsApp. Cada uma respondida na página é uma conversa que começa mais adiantada.

O corte acontece antes do desenho

Uma observação sobre ordem, que muda o custo do processo.

Se a página for desenhada primeiro e o conteúdo entrar depois, cortar fica caro: cada corte quebra um layout que já foi aprovado, e a discussão deixa de ser sobre a utilidade do elemento e passa a ser sobre o buraco que ele deixa.

Se o conteúdo for decidido primeiro, cortar é de graça — é apagar uma linha de uma lista.

É por isso que a gente escreve antes de desenhar. Não por preferência de método: porque é onde o corte custa menos.

O teste final

Quando a página estiver montada, faça este exercício com ela:

Tape tudo menos a primeira tela. O que sobrou responde “o que essa empresa faz e para quem”? Se não, nada do que vem abaixo vai ser lido, porque ninguém rola uma página que ainda não entendeu.

Conte as ações possíveis. Se houver mais de duas coisas diferentes pedindo o clique da pessoa na mesma altura da página, você dividiu a atenção dela em duas e não vai ganhar nenhuma.

Leia em voz alta. O que soar como texto de folder — “soluções inovadoras”, “excelência no atendimento”, “parceria de sucesso” — é enchimento. Enchimento nunca passa na regra das três.

Continue o rastro

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